Etarismo no Ambiente de Trabalho: Desafios e Perspectivas

Etarismo no Ambiente de Trabalho: Desafios e Perspectivas

 

1º de outubro, lembro-me de duas grandes lições que sempre trouxe ao longo de minha vida, após uma aula sobre Gestão de Pessoas na PUC do Paraná; e isso já faz mais 20 anos: a) “demitir alguém é demitir uma instituição “e b) “quer formar um bom grupo”? escolha, pelo menos, 1 jovem, 1 idoso/sênior, gêneros diferentes e com experiências de vida (além do técnico).  E é sobre um desses mais importantes pilares que hoje vou tratar – a sabedoria que, fruto da experiência, os profissionais idosos ou seniores trazem aos times.

No Brasil, quando comemoramos o Dia do Idoso, essa data nos lembra da importância e responsabilidade que temos em relação à população idosa, aqueles com mais de 60 anos, que trazem um rico acervo de experiências forjadas em tentativas, erros e acertos, sustentando nossa memória e a história, base fundamental para a construção de um futuro mais equitativo, humano e próspero. Entretanto, essa celebração também nos convoca a reflexão sobre uma influência que vem se tornando cada vez mais evidente no ambiente de trabalho: o etarismo.

O etarismo, termo que denota estereótipos, preconceitos e discriminações baseadas na idade, está presente em nossa sociedade de maneira mais ampla do que podemos imaginar. E, ao se manifestar no ambiente profissional, gera impactos na vida dos trabalhadores, nas organizações e na sociedade.

A Evolução da Longevidade

Para compreendermos melhor o contexto do etarismo no trabalho, é importante observar a evolução da longevidade. Em 1940, a expectativa de vida no Brasil era de apenas 45,5 anos. As projeções apontam que, até 2050, nossa expectativa de vida deve chegar aos impressionantes 81,29 anos e em, 20260, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os idosos podem representar cerca de um terço dos brasileiros, com 32,2% da população. Esse aumento é resultado direto das melhorias nas condições gerais de vida, como avanços na tecnologia médica, saneamento básico, educação e renda.

Essa mudança demográfica tem um impacto direto nas dinâmicas familiares e, por consequência, no ambiente de trabalho. Cada vez mais, os idosos também tem se tornando referência financeira em suas famílias, assumindo responsabilidades como despesas de habitação, o que exige uma adaptação nas políticas e práticas de emprego. De acordo com esse mesmo instituto, um a cada 4 indivíduos entre 25 a 34 anos ainda residem com seus pais, mantendo, de alguma forma, pressão para que os idosos, se mantenham, independente de suas escolhas pessoais, ativos no mercado de trabalho.

 

Etarismo no Ambiente de Trabalho

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o etarismo engloba preconceitos, estereótipos e discriminações com base na idade. Pode se apresentar de maneira institucional, interpessoal ou até mesmo autodirigida.

No âmbito institucional, vemos leis, regras e práticas organizacionais que limitam indevidamente as oportunidades devido à idade. Isso pode incluir a negação de empregos com base na idade de um candidato, um exemplo preocupante que afeta diretamente a carreira e vida das pessoas.

No ambiente de trabalho, o etarismo pode também se manifestar quando colegas de faixas etárias diferentes julgam uns aos outros com base em estereótipos relacionados à idade. Esses preconceitos podem afetar a dinâmica de trabalho e o relacionamento entre gerações.

Além disso, existe ainda o etarismo autodirigido, que ocorre quando o próprio indivíduo internaliza o preconceito de idade, afetando sua autoestima e autoconfiança.

 

Consequências do Etarismo

Os impactos do etarismo no ambiente de trabalho são significativos. Dados da plataforma Infojobs revelam que cerca de 70% dos profissionais com mais de 40 anos já enfrentaram preconceito de idade em processos seletivos. Além disso, a discriminação por idade está associada a uma expectativa de vida mais curta, pior saúde física e mental para os idosos. O etarismo também pode aumentar o risco de violência e abuso contra pessoas mais velhas, contribuindo para a pobreza e a insegurança financeira na velhice.

 

Enfrentando o Etarismo no Trabalho

É fundamental reavaliar o etarismo no ambiente de trabalho. As medidas incluem o desenvolvimento de políticas que não tolerem a discriminação por idade, incluindo a alteração de instrumentos legislativos que o permitem e a inclusão de intervenções educacionais que promovam a empatia e dissipem concepções equivocadas sobre diferentes faixas etárias.

Investir em atividades que promovam o contato intergeracional é outra estratégia eficaz para reduzir preconceitos e estereótipos. Isso pode ser realizado por meio de programas que incentivam a colaboração e a aprendizagem entre diferentes gerações.

No entanto, é importante destacar que a diversidade geracional também é um componente essencial para a inovação e o sucesso organizacional. Equipes compostas por profissionais de diferentes idades (o exemplo que comentei no início do meu texto) têm a capacidade de trazer perspectivas únicas, impulsionando a criatividade e a resolução de problemas.

Em resumo, o Dia do Idoso nos lembra da importância de valorizar e respeitar todas as faixas etárias no ambiente de trabalho. Combater o etarismo é nossa responsabilidade, até porque, um dia todos vamos envelhecer e, espero, com muita saúde, capacidade e vontade de ser útil a vida. Para isso, a promoção de um ambiente inclusivo e diverso é fundamental para o sucesso e a evolução da nossa sociedade.

Os profissionais de SST tem um papel fundamental – desde a antecipação e o reconhecimento de riscos ocupacionais até o acolhimento dos candidatos e profissionais que, crescendo (ou não) com a organização, envelhecem com ela. A avaliação médica ocupacional com a definição de instrumentos padronizados, rede referenciada, a gestão dos casos e dos riscos, todo um gerenciamento específico que visa potencializar, de forma ética e técnica, as ações de prevenção, proteção, diagnóstico precoce e tratamento/reabilitação precisam ser cada vez melhor estruturados e, como membros ativos e (a)efetivos, seremos capazes de agir em prol de uma inclusão segura dos trabalhadores que estejam aptos aos exercício do trabalho, fomentando a sua longevidade enquanto fizer sentido – ou já não estamos também experimentando esse processo junto?

 

Lembremo-nos de que a idade não define a capacidade, a competência ou o valor de uma pessoa. É hora de celebrar a VIDA em todas as suas etapas e construir um futuro em que o etarismo seja apenas uma lembrança de um passado.

 

Referências:

  1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). (2021). Estatísticas do Registro Civil 2020.
  2. Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização das Nações Unidas (ONU). (2021). Relatório Global sobre Etarismo.
  3. Ernst & Young e Maturi. (2022). Estudo sobre Idade e Trabalho no Brasil.
  4. Infojobs. (2021). Pesquisa sobre Etarismo no Ambiente de Trabalho.
  5. Dia do Adulto: Especialista explica por qual razão “geração canguru” demora cada vez mais para sair de casa. https://brandnews.com.br/noticia/8118/dia-do-adulto-especialista-explica-por-qual-razao-geracao-canguru-demora-cada-vez-mais-para-sair-de-casa

 

Ana Paula Teixeira.
@draanapaulateixeira

Autora do livro “53 Formas de Encontrar Deus – Além da Pandemia” e dos e-books “Burnout – Como Proteger sua Vida e seu Trabalho da Exaustão” e Como aliviar o Estress”.

Médica do Trabalho da Petrorecôncavo.
Tem como propósito inspirar lideres a manter uma cultura de saúde, bem estar e resiliência corporativa despertando, nas pessoas, vontade de desenvolvimento e evolução.

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