A febre amarela como risco ocupacional

A febre amarela como risco ocupacional

Antes de entrarmos no assunto Febre Amarela, precisamos entender as relações do ser humano com o meio ambiente e os diversos ecossistemas brasileiros. Somos um País tropical de grandes diversidades climáticas e geográficas. Nesse meio ambiente convivem animais, homens, insetos e microrganismos. Consequentemente, os vírus da dengue, zika, chikungunya e febre amarela. Precisamos de cautela se pretendemos conter a expansão que vem ocorrendo no caso da febre amarela. A fim de entender um pouco mais sobre este tema que vem preocupando médicos, vigilantes de saúde, trabalhadores e a população em geral, conversamos com o Dr. Marcelo Pustiglione, médico especialista em Medicina do Trabalho que está elaborando, na Divisão de Vigilância Sanitária do Trabalho da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, um Protocolo Clínico voltado para a segurança e saúde do trabalhador rural.

Dr. Marcelo, existe apenas um único tipo de febre amarela?
São identificadas duas formas de Febre Amarela: a silvestre e a urbana. Na silvestre, ao picarem macacos infectados pelo vírus da febre amarela, os mosquitos Haaemagogus Sabethes se contaminam e os transmitem a outros macacos ou a humanos não vacinados. Isso pode gerar um círculo vicioso sem fim, caso não seja combatido pela prevenção. Já a urbana é transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti – o mesmo que transmite os vírus da dengue, da zika e da chikungunya – que adquire o vírus picando humanos portadores do vírus da febre amarela, estejam doentes ou não.

Como podemos identificar uma região urbana de risco da doença e quais os sintomas apresentados?
A confirmação laboratorial da morte de macacos em decorrência do vírus da febre amarela próximo à região urbana, representa indicador de risco para um surto da doença que, na cidade, passa a ser transmitida pelo Aedes. Os sintomas dos dois tipos de febre amarela são muito semelhantes e surgem de três a seis dias após a picada. Variam muito, desde formas leves, pouco sintomáticas e que regride espontaneamente, até as que provocam sintomas importantes e evoluem com complicações graves e até para a morte. Na forma grave, além desses sintomas, é frequentemente referido o aparecimento repentino de mal-estar, dor de cabeça, dores musculares muito fortes, cansaço, vômito e diarreia. A pior evolução da doença que pode levar à morte é caracterizada por icterícia progressiva, hemorragias, comprometimento dos rins, fígado, pulmão, além de problemas cardíacos e encefalopatias.

De que forma podemos tratar a doença?
Não existe nenhum tratamento específico para esta doença, apenas a internação para observação e medidas de suporte, visando prevenir complicações e o óbito. De acordo com o Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COES – Febre Amarela) da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (Informe – Nº 07/2017 atualizado em 01/02/2017), até essa data foram notificados no Brasil 857 casos suspeitos de febre amarela silvestre, a maioria deles ocorrendo nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Sempre que temos um surto de doença é natural a preocupação da população. Existe uma vacina? Como o trabalhador pode se prevenir?
Pelo menos, temos duas boas notícias. Primeiro, realmente existe uma vacina contra a febre amarela. Segundo, ela é distribuída gratuitamente nos postos de saúde. A vacina é bastante segura e eficaz, raramente apresenta efeitos colaterais adversos e é administrada em dose única por via subcutânea.
No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda duas doses da vacina: a primeira dose, seguida de uma dose de reforço, aplicada dez anos depois da primeira em adultos e crianças residentes em áreas de risco ou que vão viajar para esses lugares.  Desta forma, do ponto de vista da saúde ocupacional, todo trabalhador que execute suas atividades laborais em zona endêmica ou no habitat natural do reservatório e do vetor, deve ser obrigatoriamente vacinado. Importante salientar que, havendo indicação de imunização, a vacina deve ser administrada dez dias antes de o trabalhador viajar para a área suspeita.

Quais são os trabalhadores potencialmente expostos ao ciclo de transmissão da febre amarela no Brasil?

Eu tenho uma tabela que apresento sempre quando solicitado. Posso disponibilizá-la para vocês agora mesmo.

  • Agentes religiosos (missionários)
  • Em canteiros de obra e manutenção de rodovias e ferrovias
  • Em frentes de trabalho
  • Equipes de saúde (médicos, enfermeiros, agentes de saúde)
  • Geólogos, espeleólogos e arqueólogos
  • Trabalhador florestal: extrativistas, lenhadores, guardas
  • Trabalhador rural e a céu aberto em atividades agropecuárias; safreiros “migrantes”
  • Militares e agentes de fiscalização
  • Pesquisadores
  • Viajantes

E, além da vacina, como podemos proteger os trabalhadores em atividades tão díspares?
Os trabalhadores potencialmente expostos devem ser orientados para utilizar camisas com mangas compridas, calças compridas, e repelentes nas partes expostas, inclusive no trabalho; telas em janelas, portas e varandas das casas e alojamentos; repelentes ambientais; “mosquiteiros” nas camas, etc. Estas medidas são importantes para evitar a aquisição e posterior disseminação do vírus da febre amarela e a aquisição de outras doenças transmitidas por mosquitos.

A vacina tem alguma contraindicação?
Sim. A vacina contra a febre amarela está contraindicada para gestantes; lactantes; pessoas imunodeprimidas, portadoras de HIV, de tumores malignos, incluindo leucemia e linfomas, aos que utilizam medicamentos derivados da cortisona, estão em tratamento de quimioterapia ou radioterapia, ou são portadores de doenças que alteram o funcionamento do timo; e pessoas com hipersensibilidade a algum componente da vacina. Além disso, adultos com idade igual ou superior a 60 anos só podem tomar a vacina depois de um especialista avaliar o custo x benefício da medicação, uma vez que, nessa faixa de idade, aumenta o risco de desenvolver os efeitos indesejáveis da vacina. Pacientes HIV positivo e imunodeprimidos, de maneira geral, devem evitar as viagens para os lugares onde exista risco de febre amarela. Se houver absoluta necessidade, devem consultar um médico especialista no assunto.

A dengue, a zika e a chikungunya podem potencializar os riscos da doença?
Não. O que estas doenças têm em comum não é o vírus, mas sim o seu vetor: o mosquito, que nas regiões urbanas é o Aedes aegypti que tem a capacidade de albergar os quatro vírus. Salientamos que, nos dias de hoje, a ocorrência de morte de macacos próximo a aglomerações urbanas apontam risco de casos de febre amarela urbana, fato que reforça a necessidade de combate ao Aedes aegypti, o vetor urbano da doença, basicamente em seus criadouros: os depósitos de água parada.

Ações básicas de combate ao Aedes aegypti (em casa e no ambiente de trabalho), diante de possibilidade concreta de epidemia de febre amarela urbana (morte de macacos próximas a áreas habitadas por humanos)

1. MEDIDA FUNDAMENTAL E PRIORITÁRIA
Imunizar a população potencialmente exposta
2. MEDIDAS COMPLEMENTARES, MAS NÃO MENOS IMPORTANTES
As plantas humanizam os ambientes, então mantenha os pratos dos vasos sempre secos ou coloque um pouco de areia neles e evite ter no ambiente de trabalho plantas aquáticas e objetos de decoração que levam água. Não armazene garrafas vazias em local descoberto; caso isso não seja possível, cuide para que sejam mantidas sempre de cabeça para baixo.
Providencie que os depósitos de água, como poços, caixas d`água, tambores, etc., estejam sempre tampados. Inclua no procedimento de higienização lavar com bucha ou escova, pelo menos uma vez por semana, todos os recipientes que armazenem água e limpar as caixas d’água e cisternas pelo menos uma vez ao ano.
Se tiver animais em casa ou no serviço (um cão de guarda, p.ex.) providencie que a água para consumo dos animais seja trocada todos os dias. Não permitir a armazenagem de latas abertas, telhas, pneus velhos, etc. no pátio ou quintal da empresa.
Ensacar o lixo em sacos plásticos. Providenciar a remoção sistemática e segura do lixo e entulhos, bem como o escoamento de água parada ou empoçada.
Fiscalizar calhas e lajes providenciando a limpeza e drenagem de água parada, sistematicamente e sempre após precipitação de chuva. Havendo o mosquito valer-se de camisas com mangas compridas e calças compridas em casa e no trabalho; repelentes nas partes expostas; telas em janelas, portas e varandas das casas e alojamentos; repelentes ambientais; e “mosquiteiros” nas camas.

Marcelo Pustiglione é Médico do Trabalho da Divisão Técnica de Vigilância Sanitária do Trabalho/CCD-CVS da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo; Professor colaborador e preceptor da Disciplina de Medicina do Trabalho do Instituto Oscar Freire da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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