Como a Medicina do Trabalho enxerga o uso de tecnologias ?

Como a Medicina do Trabalho enxerga o uso de tecnologias ?

Como a Medicina do Trabalho enxerga o uso de tecnologias para contribuir na melhor gestão da saúde integral do trabalhador?

 

  1. A Evolução para a saúde integral

 

Primeiramente gostaria de relembrar um pouco como evoluímos para o cuidado da saúde integral dos trabalhadores.

 

As Doenças Relacionadas ao Trabalho vêm mudando o seu perfil no Brasil, devido a mudança da economia que passa dos setores primários e secundários para o terciário. Desta maneira, das “tradicionais” Doenças Relacionadas ao Trabalho (intoxicação por metais, silicose, perda auditiva) passamos para o aumento da importância dos transtornos mentais relacionados ao trabalho. No ano de 2018 houve um aumento de 12% de benefícios concedidos pelo INSS por transtornos mentais adquiridos no trabalho em relação a 2017. Muitos fatores contribuíram para este perfil de adoecimento, como longos períodos de deslocamento, jornadas extensas, falta de tempo para cuidar da saúde, além da pressão por resultado.

 

Concomitante com esta mudança houve o envelhecimento da população, gerando o aumento das Doença Crônica Não Transmissível (DCNT), não relacionadas especificamente com o trabalho, mas que pode gerar repercussão no trabalho, além de podermos evitá-las ou pelo menos controla-las com mudanças no estilo de vida.

 

Sendo assim, tínhamos antes das Normas Regulamentadoras (NRs) um exame clínico geral feito pelos Médicos nas empresas, que após as NRs passou a estritamente ocupacional e hoje, com todas estas mudanças citadas anteriormente, temos a necessidade de contemplar a saúde integral dos trabalhadores.

 

  1. Aumento dos gastos com saúde

 

Outro ponto a ser considerado é o aumento dos gastos com saúde. Os gastos com saúde estão crescendo num ritmo mais acelerado que o restante da economia global, representando 10% do produto interno bruto (PIB) mundial. No Brasil, atualmente, o gasto total em Saúde é de cerca de 8% do PIB; 4,4% do PIB é de gastos privados (55% do total) e 3,8% PIB de gastos públicos (45% do total).

 

Este custo pode estar relacionado ao aumento das DCNT, além das internações, solicitação indiscriminada de exames complementares e impacto do uso de novas tecnologias. As novas tecnologias podem abranger desde exames genéticos, aperfeiçoamento das órteses e próteses, e até mesmo os quimioterápicos ministrados por via oral, a imunoterapia, as cirurgias com auxílio de robôs, implante de stents. Sendo assim, neste caso a tecnologia se usada de maneira indiscriminada pode ser onerosa, mas com a indicação correta pode trazer benefícios, como por exemplo, uma cirurgia por vídeo pode reduzir o tempo de internação.

 

Considerando que aproximadamente 67% dos beneficiários de planos de saúde privados no Brasil tem planos coletivos empresarias, resulta na elevação dos gastos com a saúde dos trabalhadores das empresas. Desta maneira é essencial que haja investimento na melhoria da saúde, caso esta gestão sustentável e populacional de saúde não seja incentivada poderá repercutir nas empresas não conseguindo mais ofertar este benefício aos trabalhadores. Além de implementar alterações nas configurações dos planos, as empresas devem se esforçar para que consigam identificar e encaminhar de forma proativa doenças complexas e onerosas.

 

  1. Como a tecnologia pode ajudar

Após esta breve introdução de como chegamos a Saúde Integral e a evolução do aumento do custo com saúde é que podemos pensar na tecnologia como uma oportunidade para melhoria da gestão da saúde.

 

A oportunidade de analisar os dados de forma agregada, considerando dados de prontuários eletrônicos, sociodemográficos e laboratoriais, além dos dados das contas médicas, desta maneira gerando uma melhor qualidade e eficiência dos cuidados com a saúde.

 

Todas estas ações podem estar integradas com o planejamento da Saúde do Trabalhador promovido pelo Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) gerenciado pelo Médico do Trabalho, exercendo desta maneira o papel de Gestor da Saúde, uma das competências desta Especialidade Médica.

 

A solução é investir em programas de Gestão de Saúde, em vez de, somente, custear tratamentos. Nesse campo, a Atenção Primária à Saúde é uma importante aliada para diminuir custos com planos de saúde. Uma vez que são estimulados hábitos saudáveis com consequente redução da incidência de doenças, além de promover tratamento precoce e menos invasivo.

 

Esta Atenção pode ser incluída nos próprios Serviços Médicos das Empresas, existem diversos Modelos para esta implantação. Um deles, é realizá-lo juntamente com o exame médico periódico, ou mesmo implantar um Serviço específico de Assistência à Saúde. O Exame Médico Periódico é uma grande oportunidade para se prevenir e identificar, não apenas agravos à saúde de ordem ocupacional, mas também agravos de qualquer origem, sendo um importante momento de promoção e gerenciamento da saúde de maneira integral. Este é o momento em que podem ser levantados diversos tipos de dados, como idade, peso, altura, Pressão Arterial, Circunferência Abdominal, Glicemia, Perfil lipídico, que podem gerar informações, como por exemplo, o Índice de Massa Corpórea – IMC, o risco cardiovascular pelo Score de Framingham. Claramente necessitaremos de um prontuário eletrônico, conforme já citado anteriormente, que possa coletar estas informações e gerar estes indicadores de saúde para que possamos planejar nossas estratégias de acordo com o perfil destes trabalhadores.  Não esquecendo que devemos nos basear em dados e exames complementares propostos pela medicina baseada em evidência.

 

Concluindo, a visão da Medicina do Trabalho é que a tecnologia traz a expectativa para implantação de um programa moderno de Gestão da Saúde Integral do Trabalhador, o qual deverá ter foco na Saúde ao invés da doença! Trata-se de uma mudança de paradigma de um modelo assistencial focado no tratamento de doenças para um modelo voltado para a promoção da saúde e prevenção de doenças. Nosso desafio agora é começar a diminuir a distância entre o que temos disponível de tecnologia e o que realmente a utilizamos em nosso dia-a-dia!

Flávia Souza e Silva de Almeida

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