COVID-19 – Vacinar é preciso!

COVID-19 – Vacinar é preciso!

Marcelo Pustiglione

Professor Convidado da Disciplina de Medicina do Trabalho nos cursos de Graduação e Pós-Graduação e Preceptor do Programa de Residência Médica em Medicina do Trabalho do Departamento de Medicina Legal, Ética Médica, Medicina Social e do Trabalho do Instituto Oscar Freire da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

 

Desde 11 de março de 2020 o mundo convive “oficialmente” com uma doença infectocontagiosa nova, portanto desconhecida, e singular. Suas primeiras manifestações foram referidas nos estertores de 2019 na cidade de Wuhan, província chinesa de Hubei. Já em janeiro de 2020 foi identificado o agente responsável por aquela severa síndrome respiratória aguda (SARS). Tratava-se de um novo tipo de coronavírus que recebeu, inicialmente, o nome de 2019-nCoV e logo depois de SARS-CoV-2.

Á medida que os casos se espalhavam, rompendo fronteiras regionais e, graças à modernidade dos meios de transporte, atravessando mares e oceanos em algumas horas, novos sintomas era observados nos doentes. Progressivamente deixava de ser uma doença exclusivamente respiratória adquirindo forma sistêmica. Observou-se que atingia também o fígado, sistema nervoso, sangue e induzia ativação desregulada do sistema imune desencadeando uma “tempestade de citocinas” muito agressiva e de difícil controle  em percentual significativo de casos, levando ao óbito número significativo de doentes.

Estas características sistêmicas, graves e inusitadas para um “vírus  respiratório”, mudou o nome dessa doença emergente pandêmica. Recebeu então, a denominação de coronavirus disease – 2019, logo abreviado para COVID-19, nome adotado para designar a pandemia.

De imediato cientistas e médicos se movimentaram no sentido de conhecer o agente etiológico, formas de transmissão, medidas de proteção, detecção e tratamento precoce de casos, intervenções clínicas intensivas nos casos graves e, obviamente, o desenvolvimento de uma vacina. Graças a este esforço conjunto, em pouco tempo obtivemos grandes avanços no campo da prevenção e do tratamento. Milhões de casos se recuperaram e centenas de mortes foram evitadas.

Entretanto, como em todas as doenças e agravos da saúde, independente da natureza do agente causal – seja psicossocial, físico, químico ou biológico – prevenir é muito mais eficiente e barato, portanto mais efetivo, que remediar. Considerando este conceito clínico-epidemiológico fundamental, as medidas sociais (p.ex.: isolamento e distanciamento social; identificação e proteção de grupos de risco) e higiênicas (p.ex.: “etiqueta respiratória”, utilização de máscaras e limpeza sistemática corporal e ambiental) foram e continuam sendo essenciais no controle da transmissão comunitária e ocupacional da COVID-19.

Neste contexto preventivo, uma vacina específica,  por induzir a formação de anticorpos neutralizantes, surge como um “catalisador de imunização populacional”. Isto porque, ao mesmo tempo que protege o indivíduo vacinado que passa a contar com uma resposta pronta de defesa, à medida que imuniza quantidade significativa de pessoas, constrói uma “barreira imunológica” que dificulta a proliferação do vírus reduzindo em muito o risco de transmissão comunitária.

No contexto ocupacional a COVID-19, ou seja, aquela adquirida pela natureza do trabalho – seja uma tecnopatia ou mesopatia – os trabalhadores da saúde representam as maiores vítimas. Dados levantado no SINAN correspondentes ao período de 30/03/2020 a 14/01/2021 revelam que cerca 80% dos casos notificados dizem respeito a esta categoria de trabalhadores – na esmagadora maioria profissionais da Medicina e da Enfermagem – gerando incapacidade temporária em cerca de 30% dos casos e índice de letalidade x 1000 de 2,2.

Desta forma é justo e desejável que estas categorias de trabalhadores sejam imunizados prioritariamente. O Plano de Imunização, porém, prioriza apenas os trabalhadores da saúde que estão na linha de enfrentamento direto da doença. Correto, mas, é desejável e necessário também, que os demais profissionais da área da saúde, por atenderem, por dever de ofício, a comunidade e pelo fato da COVID-19 ser uma doença de transmissão comunitária sustentada, sejam a prioridade seguinte, independente da faixa etária. E aqui incluímos, obviamente os Médicos do Trabalho.

Para terminar ressaltamos a importância destes especialistas no enfrentamento da COVID-19 não apenas nos estabelecimentos de saúde e sim em todos os setores de atividade na elaboração, implantação e desenvolvimento de planos de contingência como também na gestão de trabalhadores viajantes ou migrantes.

Lembramos também que não devemos entender a cobertura vacinal como indicador de flexibilização das medidas sociais e higiênicas. O verdadeiro indicador é a redução do número de casos, de internações e de mortes relacionados ao COVID. Este deve ser o parâmetro social e ocupacional a ser adotado.

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