Descanso e produtividade no trabalho

Descanso e produtividade no trabalho

“Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco…
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!”

Mario Quintana

Quem poderia imaginar que o Sarampo estaria entre nós novamente? Até a primeira semana de agosto desse ano o Município de São Paulo já registrava 997 casos confirmados de sarampo conforme o Boletim Sarampo nº 51 da COVISA (Coordenadoria de Vigilância em Saúde), exigindo mutirões para atualização vacinal e vacinação de bloqueio dos munícipes da cidade mais populosa do País, apesar de em 2016 o Brasil ter sido  certificado pela Organização Mundial de Saúde como tendo erradicado o Sarampo.  Quase ao mesmo tempo, a possibilidade de acesso aos serviços médicos remotamente, graças às tecnologias capazes de conectar profissionais de saúde e pacientes, mobilizou médicos e administradores de serviços de saúde em torno de um debate acalorado que tomou as redes sociais diante da possibilidade da oferta de consultas à distância.   Mudanças apontadas como indispensáveis no regime de previdência social brasileiro, tendem ao alongamento do tempo de trabalho, lançando o trabalhador para mais distante de sua aposentadoria, merecido descanso após muitos anos vertendo suor laboral.

Turbulências políticas, instabilidade econômica, empresas inovadoras que tropeçam nas próprias novidades, ideias antigas que se reinventam, corporações gigantes que se avolumam mais ainda e outras que simplesmente desaparecem; padrões de sucesso do passado são destruídos em poucos instantes diante de novas abordagens, reputações ilibadas são abaladas a partir feéricas manifestações em redes sociais, profissões  submergem nas profundezas da tecnologia e, quase simultaneamente, novos negócios brotam em uma salinha de casa; intolerância com os contrários, monólogos coléricos mais que debates produtivos.  Esse cenário aqui resumido é hoje conhecido nos meios corporativos como Mundo VUCA.  O termo VUCA é um acrônimo, do inglês volatility, uncertainty, complexity e ambiguity.

Volátil, incerto, complexo e ambíguo é o mundo em que vivemos e trabalhamos hoje.  A velocidade com que as coisas acontecem e as informações circulam entre as pessoas transformam a relação dos trabalhadores com o seu tempo de trabalho, muitas vezes ampliando a sensação que o tempo é pouco diante das tarefas a executar, das reuniões a participar e das metas a atingir. Não é incomum ouvir: “- Como o tempo tem passado rápido!” ou “- O dia voou hoje!”.  Na realidade as demandas corporativas aumentam continuamente e cada membro do time abraça mais responsabilidades e, frequentemente, trabalha mais tempo.  O advento do home-office é comumente apontado como uma condição de trabalho mais tranquilo, entretanto aqueles profissionais que têm acesso a essa modalidade, não raro ampliam a jornada de trabalho, reduzindo o descanso a que tem direito.  O celular corporativo pode se tornar uma armadilha quando mensagens de correio eletrônico não param de chegar, muitas vezes aguardando resposta, fazendo mergulhar novamente o portador no seu trabalho, mesmo que após o horário habitual.  O absenteísmo que ocorre nos regimes de trabalho em plantões, não raro obriga mais horas de alguns profissionais, com evidente sacrifício.  O trabalhador precisa manter a produtividade a qualquer custo e se esforça para isso, afinal há muitos desempregados rondando seu posto de trabalho.

O impacto das exigências de produtividade sobre a saúde de quem trabalha não é uma preocupação nova e atinge os mais diversos ramos de atividade.  Um artigo publicado no Brazilian Journal of Medical and Biological Research em 2003 relaciona a evolução da produção científica no Brasil e suas consequências sobre os pesquisadores.  O artigo intitulado “A crescente competição na ciência brasileira: ritos de passagem, estresse e burnout” em uma livre tradução, aponta o caminho que seguiam, já naquela época, muitos pesquisadores brasileiros diante do compromisso e pressões de produção científica.  A partir de entrevistas abertas e estruturadas realizadas com pós-graduandos, pós-doutores e professores do Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ e de outros departamentos, foram apontadas consequências psicossociais desta intensa e obrigatória atividade de produção de artigos científicos, em oposição a redução progressiva de recursos: 1) grande envolvimento com o trabalho em laboratórios, englobando quase todo o tempo livre do pesquisador, levando a uma predominância de casamentos entre colegas de departamento; 2) pressão e ênfase para publicação de trabalhos científicos em revistas de alto fator de impacto e surgimento de significativo estresse e frustração pessoal quando os artigos são rejeitados; 3) perpetuação dos ritos de passagem (momentos que delimitam a transição na vida do sujeito de uma posição social claramente definida para outra; ascensão na carreira), em que o pesquisador tem que provar continuamente sua competência e se sente permanentemente sob risco de ser eliminado do sistema ou a ser desmoralizado dentro dele; e 4) desenvolvimento de um estado de exaustão mental e emocional (burnout), decorrente de esperanças e  expectativas frustradas, sentimento de perda de controle sobre o próprio trabalho e de perda do sentido da vida.

Mas o descanso em oposição ao trabalho não é somente consideração atual.  Nos séculos XIV e XV o calendário dos dias marcava acontecimentos e dias santos específicos que eram respeitados ou temidos, por serem dias de sorte ou de azar. Houve um embate entre a Igreja Romana (que celebrava dias especiais como práticas correntes) e os puritanos na Inglaterra, que propunham outra forma de organização do tempo, na qual se devia respeitar o sábado como o dia do descanso e trabalhar nos demais. Essas mudanças, iniciadas no século XVII, prepararam o terreno necessário para os novos hábitos de trabalho, já dentro de certa uniformidade e ritmo que vão caracterizar a Idade Moderna (Tonelli, 2008).  O repouso semanal é um direito dos trabalhadores, previsto pela Constituição Federal de 1988 e por legislação infraconstitucional. É previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ainda vigente quando regulamenta que o descanso semanal será de 24 (vinte e quatro) horas consecutivas e coincidirá no todo ou em parte com o domingo, salvo motivo de conveniência pública ou necessidade imperiosa de serviço, a juízo da autoridade competente, caso em que recairá em outro dia.  Também aparece como direito da mulher, dois descansos de meia hora cada um durante a jornada de trabalho para amamentar seu filho, inclusive se advindo de adoção. A mesma CLT estabelece que em qualquer trabalho contínuo, cuja duração exceda de 6 (seis) horas, é obrigatória a concessão de um intervalo para descanso ou alimentação, o qual será, no mínimo, de 1 (uma) hora e mesmo que a duração da jornada de trabalho não exceda 6 (seis) horas será obrigatório um intervalo de 15 (quinze) minutos quando a duração ultrapassar 4 (quatro) horas e muitos outros artigos, parágrafos e incisos abordam o tema repouso/descanso. Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas é o que consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).

Mas, o repouso precisa ser praticado apesar da busca voraz pela produtividade.

A psicóloga e professora de comportamento organizacional da FGV-Eaesp, Maria Jose Tonelli defende que o descanso ao longo da jornada de trabalho é necessário e afirma que “Não importa se é apenas um tempo de descanso ou se a empresa oferece alongamento e outras atividades, o essencial é que haja uma trégua. A tendência é que as organizações flexibilizem cada vez mais os intervalos.”

Em uma revisão sistemática recente (2016), pesquisadores portugueses reuniram 22 estudos abrangendo mais de 50.000 trabalhadores de várias nacionalidades, analisando a exposição a riscos psicossociais em contextos de trabalho, identificando que possuem efeitos deletérios no ambiente psicossocial organizacional e no bem-estar individual dos colaboradores as más práticas de gestão e a liderança destrutiva por parte das chefias como: horários acima das 40 horas semanais, trabalho por turnos, horas extra não remuneradas, métodos de trabalho não participados, pouca autonomia, impossibilidade de progressão na carreira, cargas de trabalho excessivas.  Locais de trabalho com elevadas exigências e insegurança no posto de trabalho levaram à fraca recuperação nos períodos de descanso e no tempo livre após o trabalho, contribuindo para a deterioração do estado de saúde em geral e baixa na produtividade dos trabalhadores.

A reforma trabalhista brasileira, amparada na Lei 13.467/17, prevê que o benefício das férias dos empregados pelo regime da CLT, poderá ser fracionado em até três partes, desde que haja acordo entre trabalhador e empresa, sendo que uma dessas partes precisa ser superior a 14 dias e as outras duas, a um período de cinco dias, não devendo  iniciar nos dois dias antecedentes a feriados ou dias de repouso remunerado.  Os trabalhadores que atuam em atividades intermitentes receberão as férias proporcionais ao tempo trabalhado: se o empregado foi convocado para trabalhar apenas dois meses durante o ano, ele terá direito a 2/12 avos de férias proporcionais.

Enfim, produzir bens ou serviços é objetivo de qualquer empresa e compromisso de todo trabalhador, porém as condições para a maior produtividade não devem gerar sofrimento. É fundamental adequada organização do trabalho respeitando limites físicos e mentais, bem como deve haver condições que proporcionem recuperação suficiente após cada jornada.  O médico do trabalho deve ter em mente que recomendar pausas ao longo de atividades é importante elemento integrador para retorno ao trabalho após afastamentos prolongados, por exemplo.

 

Referencias

  1. de Meis, L., Velloso, A., Lannes, D., Carmo, M.S., & de Meis, C.. (2003). The growing competition in Brazilian science: rites of passage, stress and burnout. Brazilian Journal of Medical and Biological Research, 36(9), 1135-1141. https://dx.doi.org/10.1590/S0100-879X2003000900001 – acessado em 17/08/2019
  2. Tonelli, M.J. – Sentidos do Tempo e do Tempo de Trabalho na Vida Cotidiana; O&S – v.15 – n.45 – Abril/Junho – 2008 – https://pesquisa-eaesp.fgv.br/sites/gvpesquisa.fgv.br/files/arquivos/tonelli_-_sentidos-do-tempo-e-do-tempo-d_319.pdf – acessado em 17/07/2019.
  3. Fernandes, C., Pereira, A. – Exposição a fatores de risco psicossocial em contexto de trabalho: revisão sistemática. Rev. Saúde Pública [Internet]. 2016    50: 24. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102016000100502&lng=en – acessado em 18/08/2019

Deixe uma resposta

Fechar Menu