Entrevista perspectivas da vacina para COVID – Entrevista realizada em 04/11/2020

Entrevista perspectivas da vacina para COVID – Entrevista realizada em 04/11/2020

Uma doença viral se alastrou em escala mundial a partir de uma província chinesa desde dezembro de 2019. Esse vírus foi “batizado” pela OMS em fevereiro de 2020 como SARS-CoV-2 e a doença por ele causada de Covid-19 e em 11 de março de 2020 a OMS declara Pandemia, dois meses após pesquisadores do mesmo país de origem compartilharem o sequenciamento genético de um novo coronavírus. O mundo mudou desde então.  O comportamento humano mudou e de sociável por natureza o ser humano tornou-se quase um ermitão forçado pela necessidade de isolamento e distanciamento social.  Oito meses se passaram desde a declaração de Pandemia e ainda inúmeras perguntas ecoam sem respostas consistentes; a expectativa de uma vacina é o que une os habitantes do planeta em torno de esforços e investimentos vultuosos, apostando na imunização individual como forma de barrar a progressão de um inimigo invisível, capaz de transtornar economias continentais e distorcer rotinas de inúmeras cidades.

Mais de uma centena de vacinas estão em testes em todo o mundo e muitas dúvidas somente serão sanadas ao longo dos testes.  Sem objetivo de esgotar o tema a APMT convidou para uma rápida entrevista o Prof. Dr Celso Francisco H. Granato, Mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade de São Paulo, Doutor na Disciplina de Infectologia pela Escola Paulista de Medicina – UNIFESP, especialista em Microbiologia e Imunologia Médica na Universidade de Hamburgo, na Alemanha e Especialista em Virologia no Hospital Necker Enfants Malades, HNEM, França.  O Dr. Celso gentilmente aceitou nosso convite para responder algumas perguntas de nossos associados.

Dr. Celso a APMT agradece a sua disponibilidade e generosidade em compartilhar sua experiência conosco e apresentamos algumas das muitas questões enviadas por nossos associados.

APMT: Até onde sabemos as vacinas têm sido produzidas e oferecidas a população somente após vários anos de pesquisa e testes. Quais as características das vacinas contra a Covid-19 em estudo? Que indicadores possibilitam afirmar sua segurança e eficácia apesar do tão pouco tempo de pesquisa e teste?

Dr Celso: Habitualmente os processos de avaliação de vacinas costumam demorar entre 1 ano e meio e 2 anos; entretanto, nesse caso da vacina anti-SARS-CoV-2, há 3 questões que a distinguem: em 1º. lugar, já havia grupos envolvidos com o desenvolvimento de uma vacina contra a SARS, primo próximo do SARS-CoV-2. Isso fez com que esses grupos já tivessem um modelo de vacina muito semelhante, bem avançado em pesquisas mais básicas. Claro que isso fez com que ganhássemos tempo. Em 2º lugar, nunca houve tanto dinheiro colocado à disposição para desenvolvimento de uma vacina.  Numa reunião em fevereiro desse ano, a OMS destinou uma verba (a ser “recolhida”) de 2 bilhões de dólares para pesquisa e desenvolvimento de vacinas. Quando qualquer outra vacina já existente teve tamanhos valores para desenvolvimento?  Em 3º lugar, a velocidade de disseminação dessa doença “exige” uma resposta dos pesquisadores na mesma velocidade ou o mais rapidamente possível; claro, com segurança e eficácia, mas o mais rapidamente que isso puder ser conseguido.

As vacinas contra Covid seguiram 2 modelos básicos: um desses modelos segue um padrão parecido com a vacina contra a Influenza (gripe) – vacina de vírus inativado –  e um outro modelo inovador: fusão de um genoma parcial de adenovírus de macaco, com uma parte do RNA do SARS-CoV-2 que é responsável pela codificação da proteína de ligação do vírus com a célula humana (chamada de spike). Essa requer mais cuidado, por ser um modelo novo, que nunca foi testado. Os parâmetros de segurança e eficiência são os que sempre foram usados nas vacinas já existentes, mas isso está sendo feito em âmbito mundial, com um número muito maior de pessoas simultaneamente.

APMT:  A Covid-19 ainda provoca questões com respostas pouco claras, como por exemplo a duração da imunidade após recuperação das pessoas contaminadas e a capacidade protetora contra novas infecções dessa imunidade adquirida. No que diz respeito as diversas vacinas em estudo há evidências quanto a duração da ação protetora induzida? E como é possível estabelecer quantas doses serão necessárias para adequada imunização das pessoas?

Dr. Celso: Não, ainda não é possível se estimar qual a duração da proteção conferida por qualquer uma dessas vacinas; ainda não houve tempo suficiente para isso, uma vez que as primeiras pessoas que receberam essas doses sob teste há 5 meses. Para se saber quantas doses seriam necessárias, há necessidade de se fazer o seguimento dessas pessoas, ver os níveis de anticorpos produzidos nos testes, estimar-se qual o nível desejável a ser atingido, normalmente tendo por base os níveis observados após infecção natural ou contra os outros coronavírus.

APMT:  Sabemos que a Covid-19 pode cursar totalmente assintomática em muitas pessoas. Existe alguma preocupação ou estudo que avalie as repercussões da vacinação em pessoas que já foram infectadas pelo Sars-Cov-2? Quem já teve Covid-19 confirmada por RT-PCR precisará tomar vacina?

Dr. Celso: Nesse momento, as perguntas a serem respondidas nos estudos visam saber a segurança e eficácia das vacinas; as pessoas que estão recebendo as doses de vacina sob estudo fazem uma triagem sorológica e aqueles que já tem anticorpos são excluídos da pesquisa. Assim, nesse momento, não se sabe quais os efeitos da vacina em pessoas que já tiveram a doença. Essa questão virá depois, quando as pessoas que já tiverem anticorpos passarem a receber as doses de vacina.

APMT:  Desde o 1º caso informado de Covid-19 ainda não completamos 12 meses de pandemia, mas já existem mais de cem vacinas de fabricantes diferentes em fases diversas de pesquisa e testes. Quais as diferenças entre as fases de pesquisa e o que determina que nessa vacina contra o Sars-cov-2 essas fases parecem exigir menos tempo? O menor tempo não compromete a segurança da vacina?

Dr. Celso: Inicialmente são feitos testes em culturas de células para saber se existe algum grau de toxicidade do produto vacinal. A seguir são feitos estudo em animais, desde não primatas até primatas não humanos. Sendo aprovadas nessas fases, passa-se a estudo em humanos que envolvem 4 fases: fase 1 com número de voluntários da ordem de dezenas até poucas centenas, quando se visa avaliar a dose do produto em cada dose (10 mg. 50 mg, 100mg, por exemplo), bem como os efeitos de mais de uma dose. Claro, já se pode avaliar também algum efeito colateral. Passada essa etapa, a fase 2 tem voluntários da ordem de várias centenas, até perto de um milhar e visam-se efeitos colaterais em uma escala maior e, portanto, com mais chance de se descobrir efeitos colaterais mais incomuns. Nessa fase também procura-se avaliar a resposta anticórpica e de imunidade celular e se há benefício de mais de uma dose. Tendo por base a dose mais provável, parte-se para a fase 3 onde os resultados das fases anteriores são confirmados (ou não) e para grupos de pessoas que chegam a dezenas de milhares. Isso permite avaliar a resposta imunológica em um grupo muito maior de pessoas, bem como efeitos colaterais bem mais raros.

No caso da vacina contra SARS-CoV-2 essas etapas foram feitas em vários locais do mundo, com números maiores de pessoas, o que permitiu termos segurança maior em um tempo relativamente menor. Os dados já disponíveis permitem que se tenha uma noção bem clara da segurança da maior parte das 9 ou 10  vacinas que já atingiram, até hoje, a fase 3 (ainda não concluída).

APMT:  Como muitos casos de Covid-19 cursam de forma assintomática, será adequado realizar sorologia antes de iniciar a vacinação? E deve ser repetida a sorologia após o ciclo de doses determinado? Caso positivo quanto tempo após a última dose?

Dr. Celso:  Não acredito que seja feita sorologia pré-vacinal em escala populacional, a menos que se tenha informações sobre risco de vacinar os soros positivos. O processo ficaria muito mais complexo (vide a vacina contra dengue). Da mesma forma não acho que se vá fazer sorologia de controle em escala populacional, pelas mesmas razões.

APMT: Em uma população de trabalhadores devem ser vacinados inicialmente os integrantes de grupo de risco para retornarem ao trabalho com segurança ou imunizar primeiramente os que se mantiveram na linha de frente?

Dr. Celso:  Eu acredito que os 2 grupos serão considerados prioritários; caso haja necessidade de se priorizar apenas um deles, creio que serão os profissionais da área da saúde com atividade direta. Esses aspectos ainda estão sob discussão entre as autoridades de saúde pública.

APMT:  Finalizando, fale um pouco sobre o estudo que o Sr. e sua equipe participam atualmente, em que fase está, quais são os resultados até o momento e qual a sua expectativa com relação a eficácia e segurança da vacina em teste e se há previsão para disponibilização para a população.

Dr. Celso: Estamos fazendo um inquérito sorológico desde maio desse ano, colhendo sangue de forma randômica da população adulta da cidade de SP. Também é aplicado um questionário com várias perguntas para classificar as pessoas de acordo com seu nível econômico, social, educacional, bem como a cor da pele que cada pessoa se atribui. Após a coleta voluntária e gratuita, são aplicados 2 testes de princípios distintos e feitas as avaliações estatísticas. Atualmente já concluímos a 4ª fase de um total de 6 fases; os percentuais estão ainda crescentes, atingindo nessa última rodada colhida no início de outubro cerca de 26%. Entretanto esse valor é de cerca de 21% nas classes de maior poder aquisitivo, maior nível educacional e de cor branca, enquanto nos estratos de menor poder aquisitivo, menor nível educacional e de cor preta ou parda é de 35%. Todos índices muito elevados.

Com relação às vacinas que já atingiram a fase 3, todas elas têm apresentado um perfil de segurança bastante satisfatório, ainda que alguns acidentes tenham ocorrido, porém de forma ocasional e sem ligação com o produto vacinal em si. É bastante provável que algumas dessas vacinas já estejam sendo administradas para os grupos de risco no primeiro trimestre de 2021. Estou bastante otimista com os resultados que temos tido até aqui.

Agradeço a APMT o convite e espero ter contribuído com a associação.

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