Reflexões em relação a atuação dos médicos do trabalho nas doenças que acometem e incapacitam os trabalhadores brasileiros.

O presente texto pretende abrir uma discussão em relação a atuação do especialista em medicina do trabalho e sua atuação frente as doenças que o adoencem e incapacitam, objetivando alertar os especialistas sobre seu papel na atenção primária à saúde do trabalhador.

 

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (O.D.S.), chamado da Organização das Nações Unidas em vigor desde 2016, pretende garantir que todas as pessoas tenham paz e prosperidade, tendo, entre outras metas, a redução em um terço da mortalidade prematura por doenças crônicas ou não transmissíveis, através da prevenção e tratamento, haja vista seu aumento devido ao crescimento populacional e envelhecimento das pessoas. Tais Objetivos foram construídos com o sucesso dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, incluindo novos temas, como a mudança global do clima, desigualdade econômica, inovação, consumo sustentável, paz e justiça, entre outras prioridades. Os objetivos são interconectados – o sucesso de um ODS envolve o combate a temas que estão associados a outros objetivos.

A Organização Mundial de Saúde publica a “World Health Statistics”, onde são apresentadas as mais recentes estatísticas mundiais, incluindo dados empíricos e estimativas relacionadas, entre outros, à mortalidade, morbidade e fatores de risco das doenças1. Nesta publicação, pode-se verificar dados em relação a saúde global e sua relação com o atingimento dos O.D.S.

 

O Brasil passou por mudanças demográficas profundas, oriundas do aumento da expectativa de vida, o que resultou no envelhecimento da população, concomitantemente a isso, ocorreu um aumento da prevalência de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). A Pesquisa Nacional de Saúde, realizada em 2013 pela FIOCRUZ em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), evidenciou dados relevantes para a atenção integral à saúde do trabalhador nos indicadores de saúde e mercado de trabalho, dos quais transcrevemos3:

 

Aspectos do Estilo de Vida:

Tabagismo (18 anos ou mais de idade, com indicação do intervalo de confiança 95%, segundo a condição de ocupação – Entre pessoas ocupadas, as fumantes atuais de tabaco correspondiam a 15,2%; entre desocupadas, 17,4%; e, entre as pessoas fora da força de trabalho, 13,5%. Quanto à exposição, das pessoas que não fumavam e que trabalhavam em ambientes fechados, 13,5% estava exposta ao fumo passivo no local de trabalho.

Uso de álcool (18 anos ou mais de idade, com indicação do intervalo de confiança 95%, segundo a condição de ocupação, em relação ao consumo de álcool). As pessoas ocupadas e desocupadas não registraram comportamento diferenciado em relação ao hábito de consumir bebida alcoólica. Entre as ocupadas, na semana de referência da pesquisa, 33,1% consumia bebida alcoólica uma vez ou mais por mês, e 30,0% consumia uma vez ou mais por semana. Entre as desocupadas, esses percentuais eram, respectivamente, 33,3% e 30,8%. Entretanto, as proporções de pessoas com consumo abusivo de álcool nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa foram17,6% para as ocupadas e 20,5% para as desocupadas. Consideraram consumo abusivo de álcool a ingestão de cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais doses para mulheres em uma única ocasião.

Consumo alimentar (marcadores de alimentação saudável – consumo de frutas, legumes e verduras e o consumo regular de feijão. marcadores de alimentação não saudável – consumo regular de refrigerantes, leite integral e de carnes com excesso de gordura. Quanto à condição de ocupação, a população desocupada apresentou percentual menor de pessoas com consumo regular de feijão (69,3%) e de peixe pelo menos um dia por semana (52,0%) e maior consumo recomendado de frutas e hortaliças (39,7%), de leite com teor integral de gordura (65,0%) e de refrigerantes açucarados regularmente (30,6%) do que o observado entre as pessoas ocupadas e fora da força de trabalho.

 

Doenças Crônicas:

A prevalência de depressão entre as pessoas de 18 anos ou mais de idade foi de 7,6% – para as ocupadas, 6,2%; para as desocupadas, 7,5%; e para as pessoas fora da força de trabalho, 10,2%. A população fora da força de trabalho também apresentou proporção maior de pessoas que tomavam remédio para dormir (12,6%) do que as demais. As mulheres apresentaram prevalências de diagnóstico de depressão mais elevadas.

Dentre as DCNT com maiores prevalências na população foram hipertensão arterial (21,4%), artrite (6,4%) e diabetes (6,2%).  Entretanto, as doenças crônicas que mais causam limitações são Acidente Vascular Cerebral, (38,6), asma (35,5%), artrite (34,9%) e Doença Osteomuscular Relacionada ao Trabalho (30,3%)4.

 

Dados estatísticos do estudo publicado em 2018 do Institute of Health Metrics and Evaluation (IHME) apontam que, no Brasil, as dez doenças que mais incapacitam são: Dor lombar; cefaléia; transtorno de ansiedade; transtornos depressivos; cegueira e deficiência visual, doenças relacionadas à idade e outras perdas auditivas; diabetes mellitus; doenças bucais; anemia; outras alterações osteomusculares. O que mais causa morte e deficiência combinadas são: Doenças cardiovasculares; violência; dor lombar; doença cerebrovascular; doenças neonatais; acidentes automobilísticos; diabetes mellitus; infecção de via aérea baixa; doença pulmonar obstrutiva crônica5.

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, em 2016, 41 milhões de mortes ocorreram devido a doenças não transmissíveis (DCNT), representando 71% do total geral de 57 milhões de mortes. A maioria dessas mortes foi causada pelas quatro principais DCNT, a saber: doenças cardiovasculares (17,9 milhões de mortes; representando 44% de todas as mortes por DNT); câncer (9,0 milhões de mortes; 22%); doenças respiratórias crônicas (3,8 milhões de mortes; 9%); e diabetes (1,6 milhões de mortes; 4%). Cumprir a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de reduzir a mortalidade prematura por DCNT em um terço até 2030 exigirá a aceleração das ações, incluindo reduzir os principais fatores de risco, como uso de tabaco, poluição do ar, dieta pouco saudável, inatividade física e uso prejudicial de álcool ¬, bem como melhor detecção e tratamento de doenças1.

 

A 8ª Conferência Mundial de Saúde definiu saúde como resultante das condições de alimentação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra, acesso a serviços de saúde. Com esse conceito amplo de saúde e, com a possibilidade real de assistir integralmente o trabalhador, a atuação do médico do trabalho na elaboração de programas de prevenção e promoção de saúde deve considerar os dados de pesquisa sobre as DCNT, intervindo no contexto do estilo de vida e no ambiente laboral, sendo protagonista no manejo clínico desses pacientes em nível de atenção primária. Nenhum outro especialista detém o conhecimento clínico e do contexto do trabalho com a profundidade necessária para atender o trabalhador, devendo o especialista ter o papel de protagonista neste cuidado.

 

Dessa forma, entendemos que a atuação do médico do trabalho deve ser pautada pelo protagonista deste processo e não pela assistencia, e encaminhamento dos trabalhadores a outros colegas para que sejam tomadas medidas, que na verdade devem ser aplicadas pelo médico do trabalho.

 

 

Rosylane Nascimento das Mercês Rocha

Médica do Trabalho

CRMDF 13019 RQE 7628

 

Referências Bibliográficas:

  1. OPAS/OMS Brasil – Progressos rumo aos ODS: uma seleção de dados das estatísticas mundiais de 2018. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5676:organizacao-mundial-da-saude-divulga-novas-estatisticas-mundiais-de-saude&Itemid=843
  2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde 2013. Indicadores de Saúde e Mercado de Trabalho. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv97329.pdf
  3. FIOCRUZ – Saúde Amanhã. Textos para Discussão. Morbimortalidade por doenças Crônicas no Brasil. Situação Atual e Futura. Disponível em: https://saudeamanha.fiocruz.br/wp-content/uploads/2017/11/PJSSaudeAmanha_Texto0022_2016_v05.pdf
  4. Institute for Health Metrics and Evaluation. Findings from the Global Burden of Disease Study 2017. Seatle, WA: IHME, 2018. Disponível em: http://www.healthdata.org/sites/default/files/files/policy_report/2019/GBD_2017_Booklet.pdf
  5. Ministério da Saúde. Relatório Final da 8ª Conferência Nacional de Saúde. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/8_conferencia_nacional_saude_relatorio_final.pdf

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