Reflexões sobre a ergonomia aplicada ao teletrabalho

Reflexões sobre a ergonomia aplicada ao teletrabalho

Ergonomia no Teletrabalho: recomendações de ajustes durante a pandemia

Historicamente, podemos lembrar de grandes marcos que transformaram o mundo do trabalho, como o Taylorismo, Fordismo e Toyotismo, passando agora pela pandemia do COVID-19 que, dentre tantos impactos e mudanças, ressignificou mais uma vez como o trabalho é organizado, aumentando drasticamente a quantidade de trabalhos remotos e trazendo a necessidade de discutirmos alguns aspectos da sua realização no panorama atual.

De acordo com Kafalski e Almeida (2015), o teletrabalho pode ser caracterizado quando os trabalhadores realizam todas ou parte de suas atividades em um ambiente fisicamente separado do seu local trabalho, usando meios tecnológicos para sua realização. O grande problema é que estamos chamando de home office, teletrabalho ou trabalho remoto uma situação que, para muitas pessoas, está sendo improvisada.

Barros e Silva (2010) trazem insights importantes sobre vantagens e desvantagens do teletrabalho em sua definição original, porém aqui, trataremos dos aspectos voltados a nossa atual realidade, onde improvisamos o trabalho contando que tudo será temporário, fazendo ajustes de tentativa e erro muitas vezes inadequados a ponto de afetar a nossa saúde.

Ao buscar a palavra ergonomia no Google percebemos achados simplistas e caricatos, tratando essa complexa ciência transversal como se seu foco fosse voltado apenas a aspectos físicos de design e postura. A Ergonomia em sua base conceitual legítima traz um olhar para problemas de ordem complexa, apresentando uma metodologia cuidadosa de identificação de incoerências entre o trabalho prescrito e o trabalho real, compreendendo e transformando além de aspectos físicos, os aspectos cognitivos e, principalmente organizacionais.

Temos a necessidade de analisar o teletrabalho pelo olhar da ergonomia na tentativa de manter a saúde, segurança, conforto e desempenho eficiente das pessoas.

A pausa para o almoço, para o café, os diferentes ambientes, os deslocamentos e a convivência deram espaço a uma nova realidade: inúmeras reuniões em frente ao computador, crianças demandando atenção no mesmo espaço, compromissos concorrendo horários, distrações, sentimento de sobrecarga ao lidar com múltiplas informações, refeições desajustadas, diminuição drástica dos deslocamentos físicos e ambientes totalmente improvisados. Muitas pessoas estão utilizando seus números de telefone pessoais com inúmeros grupos e uma infinidade de notificações em diversos períodos que excedem o período reservado ao trabalho. A multimodalidade de ferramentas para contato desorganiza a rotina e gera a confusão de não saber mais qual a reunião do dia, por qual ferramenta e onde estão determinadas informações importantes.

Não conseguimos dar recomendações que sejam adequadas a todas as situações e estamos longe de poder trazer condições ideais para o teletrabalho. Porém, sabendo da importância de educar as pessoas para que saibam o mínimo para protegerem sua saúde nesse contexto, vamos trazer algumas dicas:

Em relação aos aspectos físicos: evitar ficar sentado por longos períodos; realizar pausas (incluindo a não utilização do celular e computador nesses momentos); manter a distância entre os olhos e a tela do computador, em torno do comprimento de um braço a frente; manter os antebraços bem apoiados, evitando superfícies que apresentem quinas vivas; ajustar a luminosidade do celular; utilizar cadeiras que garantam o apoio da região lombar e uma flexão de joelhos a 90º que assegure que os pés estejam bem apoiados para equilibrar o peso corpóreo; manter a linha superior do monitor na altura dos olhos; utilizar, sempre que possível, o notebook apenas como tela através de um suporte, com mouse e teclados separados; manter as fontes de luminosidade paralelas a tela para evitar ofuscamentos e reflexos; realizar alongamentos para diminuir a sobrecarga muscular.

Com relação aos aspectos cognitivos e organizacionais temos desafios ainda maiores, pois muito do que acontece é imposto e causado pela própria empresa, como ritmos e horários abusivos. Mesmo assim, é importante se ater a: realizar pausas frequentes; reservar um espaço para ser ressignificado como ambiente de trabalho, para que possa sair dele e saber que está fora do trabalho; utilizar agendas e recursos visuais para organizar horários, tarefas e entregas; uma alimentação saudável e hidratar; realizar alguma atividade física garantindo o distanciamento social; criar acordos e sinalizar em casa suas necessidades e horários em relação ao trabalho para todos que dividem o espaço com você; criar pausas entre as reuniões alternando a postura (levantar-se explorando outros espaços); ter uma comunicação assertiva, gerenciando e negociando entregas e horários; criar o hábito de silenciar grupos e ter horários específicos para visualizar mensagens.

Essas recomendações não esgotam as amplas realidades, mas apontam alguns caminhos possíveis. O principal aspecto é perceber que tratar o teletrabalho como temporário nos induz a esperar uma condição que não se transforma sozinha. Independente do contexto ser de pandemia ou qualquer outro, ter como premissa o equilíbrio, o conforto, o propósito e, no limite a felicidade no trabalho, é essencial.

 

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AMMAR, Achraf, et al. Emotional consequences of COVID-19 home confinement: The ECLB-COVID19 multicenter study. 8 maio 2020. Medrxiv – The Preprint Server for Health Sciences. Disponível em: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.05.20091058v1.full.pdf Acesso em: 21 maio 2020.

BARROS, Alexandre Moço e SILVA, José Roberto Gomes da. Percepções dos indivíduos sobre as consequências do teletrabalho na configuração home-office: estudo de caso na Shell Brasil. Cad. EBAPE.BR [online]. 2010, vol.8, n.1, pp.71-91. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-39512010000100006&lng=en&nrm=iso>. ISSN 1679-3951.  https://doi.org/10.1590/S1679-39512010000100006.

CAMARGO JÚNIOR, Kenneth Rochel de. As tentativas de explicar o caos: a ciência, a política e a pandemia da COVID-19. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 36, n. 4, e00088120, 2020 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2020000403001&lng=en&nrm=iso Acesso em: 15 maio 2020.

Época Negócios. Coronavírus: estudo da USP vai mapear o impacto da pandemia na saúde mental dos brasileiros. Disponível em: <https://epocanegocios.globo.com/Podcast/Negnews/noticia/2020/07/coronavirus-estudo-da-usp-vai-mapear-o-impacto-da-pandemia-na-saude-mental-dos-brasileiros.html>. Acesso em 27 de julho de 2020.

Dejours, C. (2015). Le choix, souffrir au travail n’est pas une fatalité. Paris: Bayard.

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MELO, Bernardo Dolabella et al. (org). Saúde mental e atenção psicossocial na pandemia COVID-19: violência doméstica e familiar na COVID-19. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2020. Cartilha. 22 p. Disponível em: https://www.ims.uerj.br/wp-content/uploads/2020/05/cartilha_violencia_pos-3.pdf Acesso em: 30 abr. 2020. (Cartilha elaborada por vários pesquisadores com a participação da Professora Cláudia Leite – Programa de Investigação Epidemiológica em Violência Familiar (PIEVF-IMS/UERJ)

SEBRAE. Coronavírus | 40 perguntas e respostas de Direito Trabalhista: Veja perguntas e respostas de juristas sobre Direitos de Trabalho nesse momento de Coronavírus. Disponível em <https://m.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/coronavirus-40-perguntas-e-respostas-de-direito-trabalhista,4c49098d60211710VgnVCM1000004c00210aRCRD>. Acesso em 23 de julho de 2020.

RAFALSKI, Julia Carolina e ANDRADE, Alexsandro Luiz De. Home-office: aspectos exploratórios do trabalho a partir de casa. Temas psicol. [online]. 2015, vol.23, n.2 [citado 2020-07-29], pp. 431-441. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2015000200013&lng=pt&nrm=iso>.

 

Fabiana Raulino. Fisioterapeuta (UNICID). Especialista em Ergonomia de Sistemas de Produção (USP). Mestre em Engenharia de Produção (UFSCAR). CEO da Consultoria Trampolean. Docente e consultora especialista na Rede Senac SP. Juri da Revista Proteção no Prêmio Nacional de Saúde e Segurança do Trabalho.

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