Resenha de Livro – Torto Arado

Resenha de Livro – Torto Arado

Torto Arado, livro escrito por Itamar Vieira Júnior, foi o grande destaque da literatura nacional no ano de 2020. Simplesmente, foi o vencedor dos prêmios mais reconhecidos e cobiçados no cenário da literatura nacional, como o Prêmio Jabuti de melhor romance literário e o Prêmio Oceanos de literatura, ambos obtidos em 2020. A história se passa no interior do sertão brasileiro quando duas irmãs, ainda crianças, acham uma misteriosa faca de sua avó Donana, a qual encontrava-se escondida e enrolada em um pano dentro de uma velha mala debaixo da cama. Com aquela curiosidade, tipicamente infantil, as duas colocam a faca na boca e uma delas perde a língua. E assim começa a história de Bibiana e Belonísia.

Essa tragédia compartilhada pelas duas irmãs as aproxima de um modo único, quando uma se torna a voz da outra, uma comunhão e uma união que metaforicamente representa o elo que alicerça a comunidade daquela região. Itamar constrói uma narrativa envolvente ao não revelar de imediato qual das duas irmãs perdeu a língua, sendo essa descoberta desvelada aos poucos ao leitor. Ao longo da história, uma das irmãs abandona a região em que vive em busca de uma vida melhor. Isso provoca uma reviravolta na vida da irmã que fica, que perde sua metade e a sua conexão com o mundo. Após um tempo, a irmã retorna a sua terra natal com sua nova família e a região passa a ser palco da luta pela terra e por melhores condições de vida.

A narrativa que Itamar constrói para a história das duas irmãs é imersa em uma rica tradição cultural do sertão brasileiro, onde se misturam crenças, lendas, religião, trabalho análogo à escravidão, seca, sofrimento, violência, gratidão, escravidão, ancestralidade e, principalmente, um amor pela terra. O livro é dividido em três partes, sendo cada uma delas narrado por uma personagem feminina, demonstrando um forte protagonismo feminino construído em torno de mulheres fortes. Ao longo da narrativa vamos acompanhando o crescimento das irmãs, as transformações da vida do campo e os saberes que nascem da terra.

“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico à procura do coração.”

Para nós, médicos do trabalho, dois temas abordados por Itamar assumem uma perspectiva particular, os saberes vinculados às práticas de saúde e o trabalho rural. Na primeira temática, conhecemos o jarê, um amálgama de religiosidade e crenças populares única da Chapada Diamantina. A singularidade do jarê se deve ao encontro dois grupos de escravos na Chapada, o primeiro oriundo de matrizes africanas do Recôncavo baiano e o segundo dos escravos das Minas Gerais, fortemente influenciado pelo catolicismo. O pai de Bibiana e Belonísia, Zeca Chapéu Grande, é o líder do jarê, que representa ao mesmo tempo um líder religioso e o curador das dores físicas e mentais, por meio dos saberes da terra e de seus encantados. A narrativa do livro revela a tradição de práticas de saúde em comunidades distantes da atenção da medicina tradicional.

Na segunda temática, nos ressalta do trabalho rural, principalmente dos trabalhadores negros e com forte influência de práticas provenientes do Brasil colonial. Os trabalhadores daquela localidade trocam seu trabalho no campo pela moradia nas terras dos proprietários rurais, entretanto, somente é permitido a construção de casa de barro, nada de alvenaria para não demarcar a presença das famílias na terra. Esses trabalhadores podiam ter uma roça próximo à sua moradia, desde que depois do tempo dedicado trabalho na terra para o dono da fazenda. Destaca também o trabalho infantil para a fazenda, a ausência de remuneração pelo trabalho, a obrigatoriedade de comprar mantimentos na venda do dono da fazenda, o trabalho de domingo a domingo e a dificuldade de se aposentar.

“Que para aposentar era uma humilhação, pedir documento de imposto ou da terra para os donos da fazenda. Os homens se amarravam para entregar alguma coisa, além de explorar o trabalho sem pagamento dos que iam se aposentar. Às vezes chegava o dia de ir para a Previdência e o povo não havia conseguido reunir os documentos de que precisava.”

Enfim, é um livro imperdível para conhecermos um pouco do sertão brasileiro, uma experiência rica em vivências particulares de uma tradição genuinamente brasileira. Além de ser uma narrativa muito bem construída em termos de literatura, certamente um livro atemporal.

 

Dra. Daniele Maciel

Diretoria de Comunicação APMT

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