Síndrome pós-COVID e suas repercussões sobre o trabalho

Ao longo do período em que convivemos com a pandemia da COVID-19, as evidências científicas quanto o manejo e comportamento do vírus foram se acumulando. Recentemente, surgiram evidências da persistência de sintomas após a recuperação da infecção aguda, a qual passou a ser denominada síndrome pós-covid ou covid-longa. Com as informações acumuladas principalmente em 2021, a OMS observou que a maioria dos pacientes que tiveram COVID-19 se recuperam totalmente, embora alguns sofram com “efeitos de longo prazo em vários sistemas do corpo, incluindo os sistemas pulmonar, cardiovascular e nervoso, bem como efeitos psicológicos”. Essas sequelas podem ocorrer independente da gravidade inicial da infecção. Também ocorrem com mais frequência em mulheres de meia-idade e naqueles que apresentaram maior quantidade de sintomas durante a infecção inicial. Esses sintomas também podem flutuar ou serem recorrentes ao longo do tempo. A evidência disponível até o momento indica que essas manifestações clínicas estão mais relacionadas à resposta imune à infecção e não diretamente devido a lesão provocada pelo vírus.

Assim, a evidência científica acumulada até o momento tem demonstrado que os pacientes infectados pelo coronavírus podem apresentar sintomas prolongados e persistentes, mesmo após a recuperação da fase aguda da doença. Esses sintomas persistentes da COVID-19 podem afetar diferentes sistemas, incluindo o pulmonar (redução da capacidade física, dispneia, tosse, dor de garganta), cardiovascular (sintomas disautonômicos como dor torácica, taquicardia, palpitação), osteomuscular (fadiga, mialgia, artralgia), gastrointestinal (diarreia, dor abdominal e vômito), neurocognitivo (brain fog, tontura, perda de atenção, confusão), bem como efeitos psicológicos (transtorno do estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e insônia).

Em outubro de 2021, diante da evidência clínica acumulada, a OMS estabeleceu a primeira definição clínica oficial do que passou a ser denominada síndrome pós-covid ou covid longa. A COVID longa é definida como “sinais e sintomas que se desenvolvem durante ou geralmente nos primeiros três meses após história confirmada ou provável de infecção pelo SARS-CoV-2, com sintomas que duram pelo menos dois meses e não podem ser explicados por um diagnóstico alternativo”. (1) Os sintomas se desenvolvem logo após a COVID-19 ou persistem após a doença inicial, e geralmente produzem impacto no funcionamento diário do indivíduo. Ou seja, a definição de COVID longa parte da premissa da existência de relação temporal entre o início dos sintomas e a COVID-19, sendo que os sintomas devem surgir durante a infecção ou logo depois, não sendo incluídos sintomas anteriores à infecção. (2)

Assim, segundo a NICE a doença pelo coronavírus pode ser classificada quanto a duração dos sintomas em: (i) COVID-19 aguda é definida pela presença de sinais e sintomas por até 4 semanas; (ii) COVID sintomática em progresso é definida pela persistência dos sintomas de 4 a 12 semanas e; (ii) COVID longa ou síndrome pós-COVID, sinais e sintomas que surgem durante ou após a infecção pelo COVID-19 e continua após 12 semanas e não podem ser explicados por outro diagnóstico (3). Estudos focados em COVID longa têm proposto ainda a distinção entre COVID longa e persistente, sendo a última definida quando os sintomas persistem após 24 semanas (seis meses), o que denotaria um curso refratário dos sintomas na qual a resolução espontânea é menos provável, necessitando assim de abordagem multidisciplinar. (2) 

É necessário ainda distinguir a síndrome pós-covid das sequelas relacionadas à internação prolongada, uma vez que essas complicações não se enquadram como síndrome pós-COVID. Para isso, é essencial incluir uma fase de transição, cujo período varia conforme o tempo de internação e as complicações relacionadas à internação, antes de estabelecer o diagnóstico de síndrome pós-covid. Dessa maneira, somente após esse período de transição é possível caracterizar a COVID longa. (2) Assim, a COVID-19 pode resultar em diferentes síndromes como: (i) síndrome relacionada à internação prolongada; (ii) síndrome pós-fadiga viral (quando o sintoma de fadiga é o sintoma predominante; (iii) dano permanente a órgão e, (iv) síndrome da COVID longa ou pós-COVID. (2)

O reconhecimento da síndrome pós-covid e os sintomas a ela relacionados é importante para a prática do médico do trabalho. Isso, porque muitos desses sintomas resultam em impacto significativo na qualidade de vida dos indivíduos, com repercussões sobre capacidade laborativa para o trabalho. O médico do trabalho, no exercício de sua profissão, possui a oportunidade única de acompanhamento longitudinal dos trabalhadores e com isso, identificação dos sintomas sugestivos de síndrome pós-covid. Com intuito de aprofundar os conhecimentos acerca dessa nova síndrome, a APMT lançou uma série de podcasts aprofundando conhecimento com a visão dos especialistas em sua área. Não percam!

 

Autora:

Daniele Pimentel Maciel. Médica do Trabalho. Perita judicial da Vara de Acidente do Trabalho/SP. Coordenadora adjunta do curso de especialização em Medicina do Trabalho da Faculdade Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Membro da diretoria APMT.

 

Referências

  1. (WHO), Worl Healthy Organization. A clinical case definition of post COVID-19 condition by a Delphi consensus. [Online] 6 de Outubro de 2021. [Citado em: 26 de Fevereiro de 2022.] https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/345824/WHO-2019-nCoV-Post-COVID-19-condition-Clinical-case-definition-2021.1-eng.pdf.
  2. César Fernández-de-Las-Peñas, Domingo Palacios-Ceña, Víctor Gómez-Mayordomo, María L Cuadrado, Lidiane L Florencio. Defining Post-COVID Symptoms (Post-Acute COVID, Long COVID, Persistent Post-COVID): An Integrative Classification. Int J Environ Res Public Health. 2021 Mar 5;18(5):2621.
  3. (NICE), National Institute for Health and Care Excellence. COVID-19 Rapid Guidelines: Managing the long-term effects of COVID-19. [Online] 11 de Novembro de 2021. [Citado em: 26 de Fevereiro de 2022.] https://www.nice.org.uk/guidance/ng188/resources/covid19-rapid-guideline-managing-the-longterm-effects-of-covid19-pdf-51035515742.

 

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