Cafaleia e Impacto no Trabalho

Cafaleia e Impacto no Trabalho

CEFALEIA E IMPACTO NO TRABALHO

 

A cefaleia, sensação de dor na cabeça, é um dos incômodos mais comuns sentidos pelas pessoas. Ao longo da vida, 90% dos homens e 95% das mulheres admitem ter sentido algum tipo de dor de cabeça, ao menos uma vez em um ano. Um problema enfrentado todos os meses por 76% das mulheres e 57% dos homens. Trata-se de um quadro de alta prevalência, com impactos sociais e econômicos de grandes proporções. Ela é uma das principais causas de absenteísmo ao trabalho no mundo, e os indivíduos que sofrem de cefaleia cronicamente são mais propensos aos transtornos de ansiedade e depressão. O tratamento desta patologia é, muitas vezes, desafiador e boa parte da população acaba usando analgésicos de forma abusiva, ficando dependente destas medicações que, de forma paradoxal, são combustíveis para que a dor se torne, progressivamente, mais frequente.

As cefaleias são classificadas em primárias e secundárias. Sendo que, as cefaleias secundárias constituem sintomas de outras afecções. Ao contrário, nas cefaleias primárias, mais frequentes, não há uma causa subjacente. Quanto á frequência, as principais cefaleias primárias são a enxaqueca (ou migrânea) e a cefaleia do tipo tensão (CTT). Isoladas ou combinadas, estas duas condições respondem pela maioria das dores de cabeça.

A enxaqueca é uma doença neurológica caracterizada por episódios recorrentes de dor de cabeça grave acompanhada de sintomas como náuseas e vômitos, sensibilidade à luz, cheiro e som, formigamento e dormências no corpo e alterações na visão, como pontos luminosos, escuros, linhas em ziguezague que antecedem ou acompanham as crises de dor. Esta entidade pode se manifestar de duas formas: episódica, em que as dores se manifestam menos de quinze vezes por mês ou crônica, caracterizada por quinze ou mais dias com dor durante o mês.

A gênese da enxaqueca é multifatorial, mas está geralmente vinculada a alterações nos neurotransmissores, na genética, nos hormônios ou no Peptídeo Relacionado com Gene da Calcitonina (CGRP). Fatores como alimentação, sobrecarga física e mental, estresse, falta de sono também contribuem de forma importante. O excesso de trabalho aparece relacionado como gatilho no momento em que causa sobrecarga mental ou física. Dedicação exagerada aliada à falta de cuidado com a saúde é um cenário que estimula o surgimento da enxaqueca.

As cefaleias, particularmente a enxaqueca, podem influenciar negativamente o bem-estar do indivíduo e determinar prejuízos para a sociedade. Suas consequências envolvem custos diretos (gastos com o sistema de saúde) e indiretos (prejuízos pela falta ao trabalho e diminuição da produtividade). Os custos indiretos podem representar de 76 a 86% do impacto provocado pela enxaqueca.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a enxaqueca a sexta doença mais incapacitante do mundo; no Brasil, a versão crônica afeta cerca de 31 milhões de brasileiros, a maioria entre os 25 e 45 anos, faixa etária considerada o auge dos anos produtivos. O prejuízo anual causado pela população trabalhadora enxaquecosa nos EUA foi avaliado em US$1,4 a 17 bilhões e na Europa entre 18 a 27 bilhões de euros. Estima-se que os custos indiretos possam ser ainda maiores, pois não contabilizam os prejuízos no trabalho doméstico, não remunerado.

Recentemente tivemos acesso a um grande estudo transversal global (My Migraine Voice) que foi realizado em todo o mundo (31 países nas Américas do Norte e do Sul (incluindo o Brasil), Europa, Oriente Médio e Norte da África e região Ásia-Pacífico). Um total de 11.266 indivíduos adultos participaram dessa pesquisa. Os dados foram coletados entre setembro de 2017 e fevereiro de 2018 através de um questionário on-line. As perguntas avaliaram o impacto social, econômico e emocional da enxaqueca, assim como a convivência das pessoas com a doença e de que maneira ela pode afetar o ambiente de trabalho.

A pesquisa revela que 60% dos trabalhadores afetados pela versão crônica da doença perdem, em média, uma semana de trabalho por mês; cerca de 37% deles informaram que convivem com a enxaqueca há dezesseis anos ou mais. Os dados ainda revelaram que a enxaqueca reduz a produtividade em 53%, número que sobe para 56% no caso de indivíduos cujo tratamento preventivo falhou mais de duas vezes. Apesar de ser um problema conhecido da população, assim como das empresas, 63% das pessoas afirmaram que os empregadores estão cientes de que os funcionários têm a doença, o apoio recebido no trabalho não é o bastante, apenas 18% das empresas apoiam o trabalhador. Este número é relativamente pequeno se considerarmos que 47% dos participantes trabalham em período integral, portanto, diante dos episódios de enxaqueca, eles podem perder até um dia inteiro de trabalho.

A ausência do trabalhador ainda gera outro problema, sua estigmatização, que é julgado por colegas e chefes por tirar licenças médicas devido à doença. Esta falta de acolhimento também pode se tornar um fator agravante, questão que salienta a necessidade da conscientização e do apoio no local de trabalho.

Atualmente, existem duas abordagens de tratamentos: agudo e preventivo. No agudo, o objetivo é combater a dor no momento em que ela aparece com o uso de analgésicos e anti-inflamatórios, ou de triptanos e ergotaminas.

Mas o principal tratamento e também o mais efetivo é o de caráter preventivo, já que reduz o número de crises. Alguns dos tratamentos mais comuns são o Botox, além de orientações não farmacológicas, como realização de atividades físicas, psicoterapias, acupuntura e ioga.

Recentemente, a ANVISA aprovou o erenumabe (Pasurta nome comercial no Brasil), anticorpo monoclonal desenvolvido especificamente para bloquear os receptores de CGRP. De caráter preventivo, o novo tratamento é injetável e funciona de forma semelhante à da insulina para o diabetes.

Como o estresse no ambiente de trabalho pode ser fator desencadeante das crises é preciso evita-lo na medida do possível. As pessoas precisam avaliar os limites pessoais e não ultrapassá-los. Por outro lado, é importante o apoio das empresas/empregadores no sentido de cada vez mais proporcionar um ambiente de trabalho saudável e menos estressante. Deve-se buscar válvulas de escape para o estresse, como forma de relaxamento que trabalhe o corpo e a mente.

Por fim, vale ressaltar o quanto a qualidade de vida é importante no tratamento e na prevenção das cefaleias crônicas. Dormir bem, se alimentar adequadamente, praticar atividade física, ingerir água suficiente e trabalhar para que o estresse do dia a dia não nos desestabilize, são atitudes fundamentais para que possamos ter uma vida com menos dor.

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